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Foto: Arquivo pessoal/Rodrigo Schwanck

As corridas pela cidade que começam cedinho e só terminam de madrugada; o susto da batida repentina ou da árvore desabando sobre o carro; o desamparo dos aplicativos; e o desespero de meses sem grana, com contas vencendo e um carro para arrumar.

Esse é o caminho pelo qual passaram e passam motoristas de aplicativos que sofrem acidentes durante as corridas. Não há estatísticas que contabilizem esses acidentes, mas, juntando dados do Detran e relatos de entidades regionais de profissionais da categoria, é possível ter um retrato da situação.

José Pereira, presidente da Associação dos Motoristas de Aplicativos de Porto Alegre e região metropolitana, diz que há pelo menos 50 sinistros por semana de acidentes envolvendo a categoria. E Eduardo Lima, presidente da associação da cidade de São Paulo, conta que recebe pelo menos um pedido de ajuda por semana de profissionais que se acidentam e não têm como arcar com os custos do conserto do carro e suprir as dívidas enquanto ficam sem trabalho.

Um levantamento feito pelo CET de São Paulo com dados de 2020 mostrou que motorista era a quinta ocupação com o maior registro de acidentes de trânsito numa lista com 40 profissões. E a sexta em número de mortos em acidentes registrados na cidade.

Ocupações mais comuns das vítimas de acidente:
  • Estudante - 1236
  • Motofretista - 966
  • Autônomo(a) - 478
  • Desempregado(a) - 370
  • Motorista - 344
Ocupações mais comuns das vítimas mortas:
  • Estudante - 80
  • Aposentado(a)/pensionista - 65
  • Motofretista - 58
  • Desempregado(a) - 34
  • Ajudante ou auxiliar de serviços gerais e limpeza - 22
  • Motorista - 21
Sono, jornadas exaustivas e dependência

Entre as maiores causas dos acidentes, estão as jornadas de trabalho exaustivas dos motoristas, que rodam muitas horas por dia e quase não descansam. Segundo Pereira, há vários profissionais que emendam vários dias e noites de trabalho, dormindo algumas poucas horas em postos de gasolina em horários intercalados.

O acidente envolvendo o ex-BBB Rodrigo Mussi, em 31 de março, escancarou o problema do cansaço das jornadas intermináveis. O delegado do caso indicou que o motorista Kaique Reis, de 24 anos, foi imprudente, e apontou excesso de jornada de trabalho não fiscalizada pelo aplicativo de transporte individual.

Segundo a polícia, durante vários dias ele dirigiu ao longo de muitas horas.

"Só vi o airbag na minha cara, provavelmente devo ter dado uma cochilada, sono, alguma coisa, e infelizmente teve esse acidente", disse Reis no dia do acidente.

Outra realidade cruel é a de trabalhadores que moram em cidades do interior, mas migram para as capitais para trabalhar. "Conheço um que vem do litoral na terça e volta só no domingo. Ele passa a semana toda trabalhando, dormindo no carro porque não tem onde ficar. Quando chamamos o aplicativo, não temos ideia da realidade daquele motorista", alerta Pereira.

É o caso de Cláudio Souza, de 48 anos, que mora em São José dos Campos e se desloca para São Paulo, cerca de 100 km de distância, para aumentar as corridas. "Quantas e quantas vezes já parei num posto de gasolina porque tinha perdido o raciocínio do que estava fazendo. Eram momentos de extremo cansaço", narra.

Mesmo com a exposição ao perigo, Souza diz que os motoristas não conseguem diminuir a carga porque o que ganham é muito pouco.

"Por que o motorista fica na rua tanto tempo? A pessoa pega uma corrida do ponto A ao B e paga um valor alto. Mas têm corridas nas quais são descontados até 60% do motorista. Então o foco principal é a taxa cobrada do motorista. Hoje, nós não sabemos porque é variável. Então, é isso que está nos consumindo. Temos que trabalhar muito mais pra colocar combustível no carro e ter um pouco de lucro", conta.

Pereira também cita a pressão e a falta de estrutura do profissional, que não possui uma sede com banheiro, geladeira e microondas para suprir as necessidades do dia a dia. E, por fim, o vício em álcool e até mesmo drogas, um problema crescente, segundo o presidente da entidade.


Desamparo

A maior reclamação da classe é o desamparo das plataformas e o baixo valor que ganham nas corridas.

"Legalmente, não tem nada que se faça porque os termos de uso da plataforma são claros: não existe compromisso com o motorista, a responsabilidade é dele com tudo que acontece no carro. Já houve casos de pessoas que entraram com ação, mas eles não ganharam", conta Lima, presidente da Amasp.

A Uber e a 99 oferecem seguro a motoristas e passageiros no tempo de corrida ativa, mas cobrem apenas casos de morte, invalidez e despesas hospitalares. Outros danos e prejuízos são responsabilidade dos trabalhadores.

O que as associações fazem é orientar que eles façam proteção veicular, tenham seguro de celular, e paguem o INSS ou tenham cadastro como MEI (Microempreendedor individual) para que haja um amparo nessas horas. Mas a maioria ainda permanece na informalidade.

Além disso, elas socorrem os colegas com vaquinhas, rifas e vendas de comida. Mesmo a solidariedade tem se tornado ineficiente para dar conta da grande demanda de pedidos. "À vezes tem tanta gente precisando que a gente tem que escolher para quem a gente vai fazer a ação", lamenta Pereira.

Leia, abaixo, as histórias de três pessoas que passaram por acidente nos últimos anos.

Meire: 'Estou sobrevivendo com rifa'

Na terça de carnaval deste ano, Lucimeire Oliveira foi chamada para uma corrida poucos minutos antes do tempo desabar em São Paulo. A chuva chegou quando Meire e o passageiro estavam no carro e, no meio do caminho, uma árvore caiu sobre o capô.

Ela estava para completar um ano como motorista de aplicativo quando isso aconteceu. O seguro não cobria desastres naturais. E os R$ 3 mil que ela fazia por mês com as corridas mal pagavam os gastos com gasolina, manutenção do carro e as contas básicas para sobreviver.

“Mandei o ocorrido para a empresa, ela disse que ia me dar uma resposta sobre o tempo que eu ia ficar parada. E até hoje nada”, conta. Meire não sabe ainda como vai pagar o conserto do carro que está na oficina.

"Não estou trabalhando, não tenho como alugar um carro. Motorista de app trabalha pra sobreviver, não pra juntar dinheiro. Estou sobrevivendo com a rifa que o pessoal do grupo fez pra mim, pra comer, pagar luz, contas", desabafa.

Gilmar: 'Dormia em posto de gasolina'

Gilmar Rabaiolli Franzon é a única pessoa com renda em uma casa de três moradores. O dinheiro vinha das corridas por aplicativo que fazia em Porto Alegre. Quando um carro bateu no seu, em agosto do ano passado, e fugiu sem prestar assistência ou arcar com os gastos, a rotina de sua casa virou de ponta cabeça.

“Fiquei bastante tempo sem trabalhar e receber e não tive resposta do aplicativo. Tive um prejuízo de R$ 3 mil para arrumar o carro mais o tempo parado, foram dois meses sem receber um centavo. Tive que alugar um carro para trabalhar no terceiro mês porque não conseguia arrumar o meu devido a não ter condições", conta. Com o carro alugado, ele correu atrás do prejuízo do jeito que pôde.

"Trabalhava quase 24 horas por dia, dormia em posto de gasolina e ia em casa só para tomar banho. Essa foi minha rotina até eu conseguir grana pra arrumar o carro."

Gilmar levou mais de seis meses para conseguir se recuperar do baque financeiro e precisou refinanciar o carro para não perdê-lo.

Rodrigo: 'Tinha que trabalhar 16 horas por dia'

Em fevereiro de 2021, Rodrigo Schwanck estava com uma passageira, parado no sinal. Um entregador de gás furou o vermelho e cruzou a avenida, e arrebentou a frente do carro de Rodrigo. Para restaurar, o orçamento ficou em R$ 15 mil.

A seguradora de Rodrigo opera por meio de uma cooperativa de motoristas. Ela é mais acessível, mas demora um pouco mais para pagar, conta. Separado e tendo que pagar pensão para duas filhas, ele não aguentaria 3 meses sem sustento. Por isso, precisou alugar um carro e viu as dívidas crescerem e as contas atrasarem.

“Foi um momento muito difícil, tive até que pedir dinheiro emprestado. Teve gente que viu minha situação e me ajudou. Foram feitos salchipão para vender e uma rifa valendo lavagem e vale combustível para tentar buscar um valor para aquele momento que eu estava passando”, conta.

“Tinha que trabalhar 16 horas por dia, começava às 6h e só parava às 22h. Tive que alugar um carro e pagar R$ 600 por semana, além da parcela de R$ 1.300 do financiamento e o conserto do meu carro. E, pra conseguir rodar, gastava de R$ 900 a R$ 1.100 de gasolina. A conta não fecha."

Quando começou a trabalhar com aplicativo, ele conseguia fazer um turno de 8 horas de trabalho e ter tempo para as aulas na faculdade de direito. Mesmo formado no fim do ano passado e com uma carga de trabalho duríssima, ele não consegue sair das ruas porque o salário de um emprego formal não paga as dívidas que ainda carrega após o acidente.


O que dizem a Uber e a 99


Nota enviada pela 99:

"A 99 informa que a segurança dos usuários antes, durante e depois das viagens é prioridade para a empresa. Desde o aceite até a finalização da viagem, passageiros e motoristas parceiros que utilizam a plataforma da 99 estão cobertos por seguro contra acidentes pessoais. Em caso de necessidade, a 99 oferece uma Central de Segurança formada por mais de 190 especialistas, entre psicólogos, engenheiros, que trabalham 24 horas por dia e 7 dias por semana, no atendimento imediato e suporte humanizado aos usuários."

Nota enviada pela Uber:

"Todas as viagens na plataforma da Uber são cobertas por um seguro para acidentes pessoais, que cobre despesas médicas hospitalares e odontológicas em até R$15.000,00. Esse seguro, mantido em parceria com a Chubb, está disponível tanto para motoristas parceiros quanto para usuários e seus convidados, em caso de incidentes, sem nenhum ônus para as partes."

Fonte: G1

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